Não tomo remédios pra me curar das angustias que vem e vão. Optei por correr e suar à exaustão qualquer incômodo ou ansiedade. Acho que resolve. Ou talvez não. Talvez seja apenas um excesso de endorfina que me permite uma nebulosidade temporária e um desfoque que, sem dúvida, é mais agradável do que a primeira sensação.

 

   É meu álcool, meu rivotril. Meu remédio. Não vou fazer apologias ao método natural sem contra indicações, pois elas existem. Meu joelho sofre, meus pés sempre estão em frangalhos e, segundo minha dermatologista, acelera o envelhecimento da pele em pelo menos duas vezes. E como qualquer pessoa que faz uso de substâncias que lhes proporcionam bem estar, ignoro os aspectos negativos da bula. Sigo correndo.

 

   Claro que,nos primeiros cinco minutos de passadas, todo o meu corpo manda mensagens agressivas, em forma de protesto, questionando a submissão àquela tortura extenuante e sem propósito. Algum condutor firme e forte – e porque não surdo – continua sua empreitada. A ordem é “apenas continuem” e assim passa o primeiro quilômetro. E aí começa a onda.

 

   Não preciso mais me concentrar em inspirar duas vezes, expirar duas vezes. Membros inferiores estão todos dormentes, espécie de transe cadenciado, que a física mecânica chama de inércia. O vento já é meu companheiro e a solidão é agradável.

 

   Sempre tem música. Algumas vezes playlists preparadas, outras no shuffle para que eu seja surpreendida. E um filme desconexo passa pela minha cabeça. Eu viro outra pessoa num mundo com regras diferentes e combinações tentadoras. Seleciono meus personagens e os transformo para que se adequem ao meu enredo.

 

   Alguma reação química faz com que as cores se polarizem e que as mágoas vazem pelos poros. Costumo perdoar e compreender a partir do quarto quilômetro, e no sexto tenho todo um plano pronto pra conversas e reconciliações. Nem sempre elas acontecem, mas pra alguém que não comunga em qualquer religião me funciona bem como penitência. Relevo, e sigo. Sigo correndo.

 

   E então quando penso que já não há mais problemas, me entrego ao êxtase. Geralmente estou entre o sétimo e o oitavo quilômetro e algumas bizarrices acontecem. Se estou segura do caminho, fecho os olhos só pelo simples prazer de potencializar a sensação do vento na pele molhada e do sangue bombando nas veias.

 

   Se estou a beira mar, desligo o som pra ouvi-lo e fecho os olhos, deixando a máquina no piloto automático. E se o que dizem aqueles que meditam que o intuito é varrer tudo da mente até não pensar em nada, digo “aqui estou, mas vim por caminhos diferentes”. Pronto, começo a correr a esmo até o maquinista surdo autorizar os primeiros comunicados de fadiga e dor serem protocolados e atendidos. Desacelero até a caminhada devagar;sentir que não domino o corpo e, assim,poder esticar cada membro pra que ele cresça e talvez prolongue a sensação de bem estar.

 

   Seguem os suspiros. Sigo só. Sinto, apenas, que não sinto nada. E não sentir nada é o que procuro de tempos em tempos. Não corro de nada, corro pro nada.

 

Maria Laura Conti

CORRENDO  DE,  CORRENDO  PARA

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